Mostrando postagens com marcador respeito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador respeito. Mostrar todas as postagens

sábado, 31 de janeiro de 2009

Lançado Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo

001 Por Maiá Menezes – O GLobo

RIO - Reunidos nesta quarta para o lançamento do Guia de Luta Contra a Intolerância Religiosa e o Racismo, representantes de várias religiões e denominações religiosas abriram o encontro, no Teatro Odeon, no Centro do Rio, com um minuto de silêncio pelos nove mortos no acidente na sede da Igreja Renascer, em São Paulo. O guia, que será distribuído por enquanto a policiais e casas religiosas no Rio, orienta a aplicação do artigo 20 da Lei Caó, que prevê penas de até cinco anos para crimes de racismo e intolerância religiosa. O guia fornece ainda endereços de auxílio para vítimas do crime. Há, no Rio, quinze casos de intolerância sendo assistidos pela ONG Projeto Legal - 70% deles referentes a crimes contra fiéis de religiões de origem africana.

O ministro interino da Igualdade Racial, Eloy Ferreira, defendeu a criação de delegacias especializadas para cuidar dos crimes de intolerância.

- O encarceramento apenas não resolve. É preciso mudar os valores - disse o ministro, em coro com representantes da Igreja Católica, do candomblé, dos presbiterianos e dos judeus.

- A cartilha é um dos passos fundamentais para que a sociedade perceba que é preciso lutar contra a intolerância. Quando você fica omisso, pode ser atingido. Quem se cala será atingido mais cedo ou mais tarde - disse Sérgio Niskier, presidente da Federação Israelita do Rio de Janeiro.

O padre Fábio Luiz, da comissão de ecumenismo e liberdade religiosa da Arquidiocese do Rio de Janeiro, afirmou que o guia "será uma verdadeira arma para construir a paz e a união".

- A Igreja Católica deseja de fato que caia todo tipo de intolerância religiosa - disse.

Autor da cartilha, o coronel Jorge da Silva, professor da Uerj e ex-secretário estadual de Direitos Humanos, afirmou que a cartilha ajuda os policiais e cidadãos comuns a se afastarem de um risco usual: o de minimizarem os casos concretos de discriminação. Já o policial civil Henrique Pessoa, representando a chefia da Polícia Civil, afirmou que o projeto do estado é resgatar um "déficit histórico" dos policiais com a religiões de matriz africana - principal alvo de intolerância.

Presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, Ivanir dos Santos afirmou que é hora de mudar a cultura em relação à tolerância religiosa "antes que as futuras gerações paguem o preço".

Fonte: O Globo

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Um dia de baiana

Por Clarissa Monetagudo - Jornal Extra


"Uma moça tão estudada como a senhora não pode estar usando uma roupa de macumbeira dessas, que vegonha!" Sentada em um banco da Central esperando o trem para Japeri, uma senhora olhava para as minhas roupas brancas fazendo um muxoxo. Eu, que estava "dando pinta" de candomblecista há pelo menos 40 minutos na plataforma, decidi sentar ao seu lado para testar sua reação. Conversa vai, conversa vem, ela me mostra a foto dos netos, e quando se sente íntima, me brinda com o comentário. Não entendia como uma moça "tão bacana, que falava tão bem", se vestia tão mal, como uma macumbeira.

Sem saber, a velhinha resumiu o que senti nos olhares da minha vizinha, do meu porteiro, da moça da farmácia, dos motoristas do jornal e de todos que me viram naquele dia chegando de saia e bata branca, colar de búzios - tudo comprado em umas férias nas terras de "São Salvador". Um susto. O visual tinha sido improvisado para que eu me sentisse invisível perto do grupo de belas sacerdotisas do candomblé que eu acompanharia nesse dia.

Minha pauta era flagrar reações de intolerência às religiões afro-brasileiras em um passeio pela cidade. E eu precisava estar no meio do grupo, despercebida. Cheguei à conclusão que vestir trajes de baiana nas ruas do Rio de Janeiro, cidade que aplaude todos os anos a passagem dessas senhoras de hipnotizantes saias rodadas no Carnaval faz com que a gente se sinta mais estrangeira do que uma japonesa de quimono e chinelinhos fazendo tlec-tlec no assoalho. Foi assim que me senti ao acompanhar as meninas do Candomblé em uma passeio pelo Largo da Carioca, Central do Brasil e um shopping na Tijuca.

Na Central, ganhei um cheque do Banco de Jesus de um religioso, que foi correndo atrás de mim para afirmar que "Jesus me ama". O valor do cheque é alto: "Sua Alma", e está assinado por Jesus e tudo. Algumas pessoas sussurravam "tá amarrado" no meu ouvido. Outros só olhavam mesmo, o que já causava um constrangimento. Também vi que é injusto generalizar o preconceito como sendo "coisa de evangélico". Muitos evangélicos foram muito gentis comigo durante todo o dia, inclusive alguns senhores que pregavam no trem.

No shopping, vendedoras de uma joalheria quase fizeram o sinal da cruz ao nos ver passar. A vizinha, no elevador do prédio, não levantou os olhos para me encarar. Lembrei que uma amiga meio barraqueira do segundo grau não hesitaria em perguntar: "Vem cá, tô pintada de verde?". Mas eu não perguntei. Apenas concluí o quanto são corajosas essas pessoas que mantém as tradições africanas contra tudo e todos. Que agüentam nas costas o peso de séculos de discriminação. Eu, que sempre amei as músicas de Caymmi e os livros de Jorge Amado, e preciso ir pelo menos uma vez por ano à Bahia, passei a ser ainda mais fã, mais apaixonada pela cultura africana e seu povo. É o povo do santo. Povo brasileiro. E merece nosso respeito.

Reportagem especial do Jornal Extra

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Encontro no Tunísia insiste na importância do Diálogo Inter-Religioso




Túnis, 10 out (RV) - Especialistas e intelectuais de países ocidentais e árabes pediram hoje mais diálogo entre as três religiões monoteístas (catolicismo, islamismo e judaísmo), afirmando que o mesmo enriquece a cultura humana universal.


O apelo está contido na declaração final da conferência realizada em Túnis, capital da Tunísia, sobre coexistência e diálogo entre religiões e culturas, que se concluiu hoje. O encontro, de três dias, foi organizado pela fundação alemã Konrad Adenaueur e pela universidade Zituna, uma das mais antigas da África.

"Cada país tem sua própria cultura, porém é possível enriquecer, consagrar os valores de respeito da cultura humana universal", lê-se na declaração. Contudo, para que o diálogo se realize, é necessário que frutifiquem o intercâmbio de experiências, a difusão do saber entre os povos e a promoção da investigação científica.

Ao encerrar o encontro, o ministro tunisino para Assuntos Religiosos, Bubaker el Akhzuri, destacou a importância de seguir promovendo o diálogo entre culturas e religiões, "para desarraigar a violência, o ódio e a rejeição ao outro". Mais de 200 pessoas subscreveram a declaração final. (BF
)

Fonte: Rádio Vaticano

domingo, 11 de maio de 2008

Qual a linguagem para o ensino religioso?



O ensino religioso parte integrante da formação básica do cidadão alicerça sua linguagem nos princípios básicos da cidadania que se concretizam na formação integral do educando. Para nortear esta concepção pode-se tomar como parâmetro os princípios contidos nas Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental e os princípios e fins da Educação Nacional da lei nº 9.394/96 que objetivam orientar as escolas na elaboração de suas ações pedagógicas.

No ensino religioso esses princípios apresentam uma relação próxima com o campo de atuação deste ensino, podendo expressar muito bem a linguagem que é utilizada no desenvolvimento dos conteúdos, refletindo algumas questões básicas da educação. Se for ensino, ensina o quê? Na linguagem pedagógica do ensino religioso, podem ser observados os seguintes critérios e atitudes para a mudança e para a construção de valores, tais como:

a) a valorização das experiências religiosas previamente construídas pelos alunos e alunas, favorecendo a capacidade de vivenciar uma relação emancipada com as diferentes culturas, considerando os princípios éticos da autonomia, da responsabilidade e do respeito ao bem comum;

b) o exercício da criatividade e do respeito a ordem democrática em sala de aula, a partir da articulação dos conhecimentos, das discussões, debate e do desenvolvimento com base nos princípios políticos, caracterizados pelos direitos e deveres da cidadania e do respeito ao diferente que se manifesta nas culturas e tradições religiosas;

c) a criação de condições para que cada educando(a) construa sua identidade, para saber acolher, conhecer, conviver e aprender a ser, valorizando e respeitando o outro, superando preconceitos que desvalorizam qualquer experiência religiosa, tendo como referência os princípios estéticos da sensibilidade e da criatividade.

Esta linguagem tem sentido de busca, de entendimento que responda às questões existenciais: Quem sou ? De onde vim? Para onde vou? Diante dessas indagações o ser humano desenvolve competências para relacionar-se consigo, com a natureza, a sociedade e o transcendente, definindo seu projeto pessoal e coletivo de vida.

No desenvolvimento dos eixos temáticos do ensino religioso e nos blocos de conteúdos apresentados nos Parâmetros Curriculares Nacionais, a compreensão dessa linguagem aponta para a interação entre quem aprende e quem ensina para construção do conhecimento histórico cultural, pois nenhuma cultura é insignificante.

Essa linguagem possibilita e desenvolve a sensibilidade para a busca do diálogo, da tolerância e da convivência pacífica com as manifestações religiosas, respeitando a pluralidade cultural religiosa brasileira.


Profa. Ângela Holanda – Maceió/ AL


Fonte: Grupo de Pesquisa Educação e Religião
Blogged with the Flock Browser

segunda-feira, 5 de maio de 2008

O diálogo Inter-religioso (segundo o Islã)


Sheikh Abu Osman*


Disse Deus o Altíssimo: “Falai ao próximo com benevolência” Alcorão 2:83. E Disse também: “Convoca (os humanos)  à senda do teu Senhor com sabedoria, pela exortação e dialoga com eles com benevolência” Alcorão 16:125  
Disse o profeta Muhammad (S.A.A.S.): “A boa palavra equivale uma caridade”. Existem no Alcorão 527 versículos que falam sobre o diálogo.

As orientações do Alcorão tanto quanto a do profeta Muhammad (S.A.A.S.), são claras quanto o diálogo entre os muçulmanos entre si  e entre os não muçulmanos também. Tais orientações  reconhecem que os seres humanos podem divergir quanto as suas idéias e mentalidades, isso é natural, e os muçulmanos têm a obrigação moral e religiosa de respeitar as opinões diferentes e pensamentos diferentes e consideram que os diferentes pensamentos poderão desenvolver melhor o convívio entre as pessoas, uma vez que nós muçulmanos somos proibidos de impor a nossa religião aos demais.

O Islam além de tudo isso, estabelece regras e normas para o diálogo, são elas:

• Tenha boa intenção voltada para Deus, e não para alcançar vitória própria;
• Escolha o momento adequado;
• Tenha conhecimento do assunto do diálogo;
• Reconheça que as pessoas não são iguais na compreensão;
• Não confisque o tempo da fala e deixe os outros falarem também;
• Saiba ouvir e não interrumba quem fala;
• Policie a si mesmo;
• Fale de uma forma clara;
• Dê exemplos e utilize estórias para aproximar as idéias;
• Explore os pontos comuns;
• Saiba parar no momento exato, se o diálogo não for frutífero;
• Não perca o controle emocional;
• Diga não sei, quando não souber;
• Reconheça o seu erro;
• Não seja radical;
• Seja fiel ao assunto do diálogo;
• Certifique-se quanto às informações a apresentar;
• Respeite o outro lado;
• Nem tudo pode ser dito em determinadas situações;
• Diferencie entre a idéia e seu portador e não confunda os dois;
• Seja justo;
• Chame as pessoas pelo melhor nome;
• Use argumentos firmes;
• A diferença deve trazer amor e não ódio;
• Tente chegar num resultado;
• Não se irrite;
• Não aumente a sua voz mais do que necessário.

* Sheikh Abdelbagi Sidahmed Osman, natural do sudão, nacionalidade brasileira, Imam da comunidade Muçulmana do RJ de 1993 e atual presidente desde 2000 representante da Liga Islâmica Mundial e da Organização Islâmica para América Latina no Brasil.

site: www.sbmrj.org.br 

Fonte: Amai-vos  

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Diversidade Religiosa e Direitos Humanos (II)

Embedded Video

Blogged with the Flock Browser

Diversidade Religiosa e Direitos Humanos (I)

Embedded Video

Blogged with the Flock Browser

Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos (V)

EDUCAÇÃO NÃO-FORMAL

Concepção e princípios

A humanidade vive em permanente processo de reflexão e aprendizado. Esse processo ocorre em todas as dimensões da vida, pois a aquisição e produção de conhecimento não acontecem omente nas escolas e instituições de ensino superior, mas nas moradias e locais de trabalho, nas cidades e no campo, nas famílias, nos movimentos sociais, nas associações civis, nas organizações não-governamentais e em todas as áreas da convivência humana.

A educação não-formal em direitos humanos orienta-se pelos princípios
a emancipação e da autonomia. Sua implementação configura um permanente processo de sensibilização e formação de consciência crítica, direcionada para o encaminhamento de reivindicações e a formulação de propostas para as políticas públicas, podendo ser compreendida como:

a)
qualificação para o trabalho;
b) adoção e exercício de práticas voltadas
para a comunidade;
c) aprendizagem política de direitos por meio da participação
em grupos sociais;
d) educação realizada nos meios de comunicação
social;
e) aprendizagem de conteúdos da escolarização formal em modalidades
diversificadas; e
f) educação para a vida no sentido de garantir o
respeito à dignidade do ser humano.

Os espaços das atividades de educação não-formal distribuem-se em inúmeras dimensões, incluindo desde as ações das comunidades, dos movimentos e organizações sociais, políticas e nãogovernamentais até as do setor da educação e da cultura. Essas atividades se desenvolvem em duas vertentes principais: a construção do conhecimento em educação popular e o processo de participação em ações coletivas, tendo a cidadania democrática como foco central.

Nesse sentido, movimentos sociais, entidades civis e partidos políticos praticam educação nãoformal quando estimulam os grupos sociais a refletirem sobre as suas próprias condições de vida, os processos históricos em que estão inseridos e o papel que desempenham na sociedade contemporânea.

Muitas práticas educativas não-formais enfatizam a reflexão e o conhecimento das pessoas e grupos sobre os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais. Também estimulam os grupos e as comunidades a se organizarem e proporem interlocução com as autoridades públicas, principalmente no que se refere ao encaminhamento das suas principais reivindicações e à formulação de propostas para as políticas públicas.

A sensibilização e conscientização das pessoas contribuem para que os conflitos interpessoais e cotidianos não se agravem. Além disso, elevase a capacidade de as pessoas identificarem as violações dos direitos e exigirem sua apuração e reparação.

As experiências educativas não-formais estão sendo aperfeiçoadas conforme o contexto histórico e a realidade em que estão inseridas. Resultados mais recentes têm sido as alternativas para o avanço da democracia, a ampliação da participação política e popular e o processo de qualificação dos grupos sociais e comunidades para intervir na definição de políticas democráticas e cidadãs.

O empoderamento
dos grupos sociais exige conhecimento experimentado sobre os mecanismos e instrumentos de promoção, proteção, defesa e reparação dos direitos humanos. Cabe assinalar um conjunto de princípios que devem orientar as linhas de ação nessa área temática. A educação não-formal, nessa perspectiva, deve ser vista como:

a) mobilização e organização de processos participativos em defesa dos direitos humanos de grupos em situação de risco e vulnerabilidade social, denúncia das violações e construção de propostas para sua promoção, proteção e reparação;

b) instrumento fundamental para a ação formativa das organizações populares em direitos humanos;

c) processo formativo de lideranças sociais para o exercício ativo da cidadania;

d) promoção do conhecimento sobre direitos humanos;

e) instrumento de leitura crítica da realidade local e contextual, da vivência pessoal e social, identificando e analisando aspectos e modos de ação para a transformação da sociedade;

f) diálogo entre o saber formal e informal acerca dos direitos humanos, integrando agentes institucionais e sociais;

g) articulação de formas educativas diferenciadas, envolvendo o contato e a participação direta dos agentes sociais e de grupos populares.

sábado, 5 de abril de 2008

Declaração de Princípios sobre a Tolerância*


Artigo 1º - Significado da tolerância

1.1 A tolerância é o respeito, a aceitação e o apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz.

1.2 A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância é, antes de tudo, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro. Em nenhum caso a tolerância poderia ser invocada para justificar lesões a esses valores fundamentais. A tolerância deve ser praticada por indivíduos, pelos grupos e pelo Estado.

1.3 A tolerância é o sustentáculo dos direitos humanos, do pluralismo (inclusive o pluralismo cultural), da democracia e do Estado de Direito. Implica a rejeição do dogmatismo e do absolutismo e fortalece as normas enunciadas nos instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos.


1.4 Em consonância ao respeito dos direitos humanos, praticar a tolerância não significa tolerar a injustiça social, nem renunciar às próprias convicções, nem fazer concessões a respeito. A prática da tolerância significa que toda pessoa tem a livre escolha de suas convicções e aceita que o outro desfrute da mesma liberdade. Significa aceitar o fato de que os seres humanos, que se caracterizam naturalmente pela diversidade de seu aspecto físico, de sua situação, de seu modo de expressar-se, de seus comportamentos e de seus valores, têm o direito de viver em paz e de ser tais como são. Significa também que ninguém deve impor suas opiniões a outrem.


Artigo 2º - O papel do Estado

2.1 No âmbito do Estado, a tolerância exige justiça e imparcialidade na legislação, na aplicação da lei e no exercício dos poderes judiciário e administrativo. Exige também que todos possam desfrutar de oportunidades econômicas e sociais sem nenhuma discriminação. A exclusão e a marginalização podem conduzir à frustração, à hostilidade a ao fanatismo.

2.2 A fim de instaurar uma sociedade mais tolerante, os Estados devem ratificar as convenções internacionais relativas aos direitos humanos e, se for necessário, elaborar uma nova legislação a fim de garantir igualdade de tratamento e de oportunidades aos diferentes grupos e indivíduos da sociedade.

2.3 Para a harmonia internacional, torna-se essencial que os indivíduos, as comunidades e as nações aceitem e respeitem o caráter multicultural da família humana. Sem tolerância não pode haver paz e sem paz não pode haver nem desenvolvimento nem democracia.

2.4 A tolerância pode ter a forma de marginalização dos grupos vulneráveis e de sua exclusão de toda participação na vida social e política, e também a da violência e da discriminação contra os mesmos. Como afirma a Declaração sobre a Raça e os Preconceitos Raciais, "Todos os indivíduos e todos os grupos têm o direito de ser diferentes" (art.1.2).


Artigo 3º - Dimensões sociais

3.1 No mundo moderno, a tolerância é mais necessária do que nunca. Vivemos uma época marcada pela mundialização da economia e pela aceleração da mobilidade, da comunicação, da integração e da interdependência, das migrações e dos deslocamentos de populações, da urbanização e da transformação das formas de organização social. Visto que inexiste uma única parte do mundo que não seja caracterizada pela diversidade, a intensificação da intolerância e dos confrontos constitui ameaça potencial para cada região. Não se trata de ameaça limitada a esse ou aquele país, mas de ameaça universal.

3.2 A tolerância é necessária entre os indivíduos e também no âmbito da família e da comunidade. A promoção da tolerância e o aprendizado da abertura do espírito, da ouvida mútua e da solidariedade devem se realizar nas escolas e nas universidades, por meio da educação não formal, nos lares e nos locais de trabalho. Os meios de comunicação devem desempenhar um papel construtivo favorecendo o diálogo e debate livres e abertos, propagando os valores da tolerância e ressaltando os riscos da indiferença à expansão das ideologias e dos grupos intolerantes.

3.3 Como afirma a Declaração da UNESCO sobre a Raça e os Preconceitos Raciais, medidas devem ser tomadas para assegurar a igualdade na dignidade e nos direitos dos indivíduos e dos grupos humanos em todo lugar onde isso seja necessário. Para tanto, deve ser dada atenção especial aos grupos vulneráveis social ou economicamente desfavorecidos, a fim de lhes assegurar a proteção das leis e regulamentos em vigor, sobretudo em matéria de moradia, de emprego e de saúde e respeitar a autenticidade de sua cultura e de seus valores e de facilitar, em especial pela educação, sua promoção e sua integração social e profissional.

3.4 A fim de coordenar a resposta da comunidade internacional a esse desafio universal, convém realizar estudos científicos apropriados e criar redes, incluindo a análise pelos métodos das ciências sociais das causas profundas desses fenômenos e das medidas eficazes para enfrentá-las, e também a pesquisa e a observação, afim de apoiar as decisões dos Estados membros em matéria de formulação política geral e ação normativa.


Artigo 4º - Educação

4.1 A educação é o meio mais eficaz de prevenir a intolerância. A primeira etapa da educação para a tolerância consiste em ensinar os indivíduos quais são os seus direitos e suas liberdades a fim de assegurar seu respeito e de incentivar a vontade de proteger os direitos e liberdades dos outros.

4.2 A educação para a tolerância deve ser considerada como imperativo prioritário; por isso, é necessário promover métodos sistemáticos e racionais de ensino de tolerância centrados nas fontes culturais, sociais, econômicas, políticas e religiosas da intolerância que expressam as causas profundas da violência e da exclusão. As políticas e programas de educação devem contribuir para o desenvolvimento da compreensão, da solidariedade e da tolerância entre os indivíduos, entre os grupos étnicos, sociais, culturais, religiosos, lingüísticos e as nações.

4.3 A educação para a tolerância deve visar a contrariar as influênciasque levam ao medo e à exclusão do outro e deve ajudar os jovens a desenvolver sua capacidade de exercer um juízo autônomo, de realizar uma reflexão crítica e de raciocinar em termos éticos.

4.4 Comprometemo-nos a apoiar e a executar programas de pesquisa em ciências sociais e de educação para a tolerância, para os direitos humanos e para a não violência. Por conseguinte, torna-se necessário dar atenção especial à melhoria da formação dos docentes, dos programas de ensino, do conteúdo dos manuais e cursos e de outros tipos de material pedagógico, inclusive as novas tecnologias educacionais, a fim de formar cidadãos solidários e responsáveis, abertos a outras culturas, capazes de apreciar o valor da liberdade, respeitadores da dignidade dos seres
humanos e de suas diferenças e capazes de prevenir os conflitos ou de resolvê-los por meios não violentos.


Artigo 5º - Compromisso de agir

Comprometemo-nos a fomentar a tolerância e a não violência por meio de programas e de instituições no campo da educação, da ciência, da cultura e da comunicação.


Artigo 6º - Dia Internacional da Tolerância

A fim de mobilizar a opinião pública, de ressaltar os perigos e de reafirmar nosso compromisso e nossa determinação de agir em favor do fomento da tolerância e da educação para a tolerância, nós proclamamos solenemente o dia 16 de novembro de cada ano como o Dia Internacional da Tolerância.


*Proclamada e assinada em 16 de novembro de 1995

(**) A tradução para o Português (junho de 1997) é uma cortesia da Universidade de São Paulo, no marco do "Seminário Internacional Ciência, Cientistas e a Tolerância", desenvolvido pela USP –Pró-Reitoria de Pós-Graduação, em cooperação com a UNESCO – Unidade de Tolerância (18a 21 de novembro de 1997). Texto original em inglês.

O elo perdido

Para a pesquisadora Mary Evelyn Tucker, o ser humano precisa se lembrar de que ainda faz parte da natureza

Maria Zulmira de Souza

A americana Mary Evelyn Tucker é uma estudiosa das religiões orientais, como confucionismo, budismo e hinduísmo. Já escreveu diversos livros em que procura retraçar as ligações entre religião e ecologia e a busca pelo equilíbrio entre as exigências de uma vida moderna e a preservação da natureza. Coordena – junto com John Grim,um pesquisador das culturas nativas da América do Norte, com quem está casada há 28 anos, mantendo uma relação de companheirismo intelectual e vida conjugal – o Fórum de Religião e Ecologia, um canal mundialmente famoso de debates sobre o tema.

Através do recheado portal www.religionandecology.com, de inúmeras publicações e seminários no Centro de Estudos das Religiões do Mundo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos,Mary busca reconectar o homem aos valores sagrados do mundo natural.Acredita que depois de se afastar do destino do homem na Terra, dando preferência ao Céu, as principais religiões ocidentais podem ter desempenhado um papel decisivo na mudança como a humanidade se relaciona com o planeta.

Mary (acompanhada de John) esteve no Brasil no último mês de julho, participando do fórum Religião, Ciência e Ambiente, na Amazônia, promovido pela Patriarca da Igreja Ortodoxa Grega Bartolomeu Primeiro.


Você acha que vivemos uma crise ética?
Acho que há uma enorme crise ética relacionada ao meio ambiente. Estamos mudando o padrão da evolução natural para sempre, com a extinção de espécies, a alteração do ciclo das águas, das chuvas, como acontece na Amazônia atualmente. Isso é irreversível. Precisamos relembrar que fazemos parte desse processo da natureza. É uma crise moral e isso é muito aflitivo. As mudanças climáticas ilustram isso muito bem. O que vai acontecer aqui na Amazônia ou na Indonésia? É um grande pesar, mas os Estados Unidos, com 4% da população mundial, usam 25% dos recursos naturais do planeta. As pessoas ao redor do mundo querem transformações e lideranças morais.


Há uma mudança na maneira como algumas religiões encaram a natureza?
As religiões estão emergindo para uma fase ecológica. A crise que estamos vivendo chama as religiões a isso, a reexaminar suas doutrinas, práticas e rituais e reconfigurá-los para o mundo moderno. O diálogo ambiental das tradições religiosas já está ocorrendo, como no Parlamento das Religiões em Chicago, em 1993, na África do Sul, em 1999, nas fortes indicações do patriarcado da Igreja Ortodoxa Grega, entre outras manifestações.


Dá para afirmar que estamos afastados da natureza?
Acho que há muitas razões para estarmos separados do mundo natural. Em parte porque a ciência quer estudar a natureza objetivamente. Em parte por conta da explosão populacional para mais de 6 bilhões de pessoas em apenas um século. Essa alienação da natureza caracterizou especialmente o século 20, com uma sucessão de guerras, revoluções e mudanças. Passamos de um período de 10 mil anos de história vivendo em pequenas comunidades próximas aos rios na África, Ásia e América Latina para uma explosão de cidades. Essa é uma imensa mudança em nossa psique, em nosso espírito.


É possível ser religioso mesmo sem ter uma religião específica?
Para mim é possível ser espiritualista sem estar ligado a uma religião ou fé específica. Acho que a maior parte do movimento ambientalista se inspirou, como John costuma dizer, num senso de beleza, de complexidade e integração com a própria natureza. É ver uma semente, uma planta, uma flor ou a nós mesmos como uma parte microscópica de algo muito maior, do macrocosmo, do sistema solar ou até do Universo. Podemos tomar como exemplo que a maior parte das pessoas sente-se renovada e restaurada ao ver um pôr-do-sol, ao estar na praia, na montanha. Isso vai nos ajudar no movimento ambiental, se pensarmos de maneira mais cuidadosa.


Como foi a experiência de conhecer a Amazônia?
Extraordinária. É impressionante o tamanho, a escala, a diversidade e a serenidade dos trechos de rio que percorremos nos pequenos barcos. É lindo. Por outro lado, ver diretamente os problemas das comunidades locais, dos povos indígenas, os imensos campos de soja e a destruição que está acontecendo nos últimos anos – tudo isso é muito perturbador.


Há uma receita pessoal para estar em equilíbrio com a natureza?
Todos nós estamos em busca da nossa receita. Todos nós estamos em busca dessa intimidade, desse senso de pertencer a uma comunidade, buscando um caminho de volta à comunidade terrestre. Eu digo isso de uma maneira muito prática também. Naturalmente considero que fazemos parte de uma história maior, que somos feitos da mesma matéria que compõe o Universo, os mesmos materiais que estão no nosso corpo estão nas estrelas, por exemplo. Compreendendo essa conexão em larga escala, isso me equilibra e me inspira. Nós procuramos esse alimento que nos energize e nós queremos esse alimento conectado ao mundo natural. E num sentido queremos água pura para beber. E tem o fogo. O Brasil tem uma música que traz o sentido do fogo, você sente fogo quando as pessoas se cumprimentam. É o fogo da música, da intimidade, do cumprimento, do beijo, do abraço. Acho que o Brasil pode nos ajudar a achar esse novo equilíbrio.

Você e John são casados, têm as mesmas preocupações e se dedicam ao mesmo tema. Como é trabalhar juntos?
Isso não seria possível se não tivéssemos compromisso com uma visão mais ampla, com uma parceria. Sou muito grata por ter um companheiro que compartilhe esse compromisso. Ele trabalha mais com as religiões indígenas, e eu com as orientais. Aprendemos muito um com o outro.


Fonte: Vida Simples