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quarta-feira, 15 de junho de 2011

TEOLOGIA DA IMPERFEIÇÃO



Há dois consensos entre as religiões: o ser humano foi criado por Deus e ele é inerentemente imperfeito. Logo, Deus criou um ser imperfeito.


Esta afirmação machuca, porque a religião não pode afirmar que Deus tenha feito algo menos que perfeito. A saída é introduzir o conceito do pecado, que “danificou” a obra perfeita de Deus. Calvino afirmou a corrupção total do ser humano pelo pecado, Aquino afirmava que restou no ser humano, depois da queda, algo de bom. Pelágio dizia que nascemos sem pecado, mas que o convívio social é o que nos corrompe. Armínio acreditava que o ser humano ficou com o livre arbítrio. São posições que tentam explicar o problema.


A questão permanece: se somos imperfeitos, por que as religiões pregam a necessidade de uma vida perfeita, santa e santificada ou seja lá o que preguem, como essencial para agradar a Deus? Se somos imperfeitos, por que se acredita e prega que Deus só usa os bons, os certinhos, os ascéticos ou reclusos?


Quando estudamos a vida espiritual dos modelos espirituais que as religiões difundem, se percebe, se se lê com um mínimo de espírito crítico, que há um processo de heroicização destes personagens, mostrando como tiveram vidas austeras, como se negaram aos prazeres, como se mortificaram, que tiveram períodos de santidade plena. A história destes “santos” é uma galeria de gente anulada.

No entanto, quando se busca com mais cuidado algumas informações sobre estes “heróis da fé”, vamos perceber gente tão imperfeita como todos nós. No terreno bíblico se tem Abraão, pusilânime diante das pressões da esposa Sara; Jacó, o enganador; Moisés, desobediente e inseguro de sua liderança; Davi, adúltero e assassino; Salomão, megalomaníaco; Jonas, desobediente e omisso; Jeremias, lamentador; Pedro, emocionalmente instável e dissimulado; Paulo perseguidor da Igreja e com espinho na carne.


No campo extrabíblico tem-se o Lutero com angústias quanto à sua fé, Aquino que chegou a duvidar da ressurreição de Jesus, Madre Tereza de Calcutá que pediu em 1953: "Por favor, reze por mim para que não estrague a obra d'Ele e que Nosso Senhor possa se mostrar ... pois há uma escuridão tão terrível dentro de mim, como se tudo estivesse morto ... tem sido assim mais ou menos desde que dei início à obra."; "tão profunda ânsia por Deus e ... repulsa ... vazio ... sem fé ... sem amor ... sem fervor. Salvar almas não atrai ... o céu não significa nada ... reze por mim para que eu continue sorrindo para Ele apesar de tudo." Em 1959 ela escreveu: "Se não houver Deus, não pode haver alma, se não houver alma então, Jesus, você também não é real."


Isto me faz recordar a resposta de Deus a Paulo que insistia em pedir que sua fraqueza fosse tirada (o tal do espinho na carne): “o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.” (II Co 12:9)


Deus, no exercício de sua soberania e poder, não precisa de coisas e pessoas certinhas para fazer sua obra. Isto o afirmou Paulo: “temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” (II Co 4:7) e o motivo é básico: se Ele só pode usar o que é santo e perfeito, a glória será dividida com o “parceiro na santidade e perfeição”, o ser humano. Se ele usa o fraco, o débil, o pecador, e o torna instrumento da sua graça, a glória é dEle.


Dr. Marcos Inhauser


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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

O filme Avatar como vivência religiosa e as implicações para a teologia prática


De Júlio César Adam*


Nas férias de verão, assim como alguns milhões de pessoas no planeta, fui assistir o filme Avatar, do diretor James Cameron. Além da empolgante propaganda na TV, sabia muito pouco sobre o filme. Não imaginava, no entanto, a intensidade de “religião” que encontraria nas quase três horas de filme.

PARTE I:

Não só os avatares do filme deixavam seus corpos humanos para ingressarem no mundo dos na’vis. Todos nós, espectadores, éramos ligados a uma experiência, muito além do que um simples filme. Isto já seria um aspecto suficientemente religioso para se pensar. Ir ao cinema tem algo de ritual – a pipoca, as luzes que se apagam, o silêncio–, algo de simbólico – luz e movimento que nos conectam a histórias, mitos do lado de cá e da lá da tela –, algo de transcendente – vamos além de nós mesmos. Todos estes elementos são em si religiosos. Mas é no que se refere ao conteúdo, à história da Avatar, que aqui quero mais me deter. Começando pelo próprio título “Avatar”[1] termo proveniente do hinduismo, as diversas conexões estabelecidas entre seres imanentes e transcendentes, a Árvore das Almas, a divindade Eywa, localizada no lugar mais central e sagrado do mundo de Pandora.

Compreendo que é também tarefa da teologia e em especial da teologia prática buscar entender estes elementos “religiosos” presentes no filme e que, também ou justamente por isto, arrastaram milhões de pessoas de diferentes culturas e religiões. Estaria o cinema, através de filmes como Avatar, suprindo a sede religiosa do ser humano? Seria o cinema o grande culto dos habitantes da atualidade? O que tem a teologia cristã a ver com tudo isto? O que a teologia prática pode tirar desta “religião nas telas dos cinemas”?

Fenômeno da religião vivida

No limiar do século XXI vivemos um fenômeno religioso. Contra todas as pressuposições, vivemos um retorno e um incremento do religioso[2]. Ou seja, contrário às previsões de que o ser humano da era científica e tecnológica seria a-religioso, emancipado, vivemos um verdadeiro avivamento da religião, tanto da institucional, como da religiosidade que perpassa a cultura[3]. O retorno do religioso na contemporaneidade é um fenômeno complexo, multifacetado. Uma das suas características é a independência da religião de suas respectivas instituições. Vive-se uma transmigração de fronteiras confessionais. Outra característica é a manifestação do religioso na esfera dita “profana”, ou seja, fora da instituição religiosa, fora da igreja instituição, fora da própria esfera religiosa. Mais do que sincretismo, mais que transgressão de fronteiras, se diluem as próprias fronteiras entre sagrado e profano. É dentro desta característica, que esta análise do filme Avatar se enquadra.

Estamos vivenciando a religião que migrou para esfera da cultura popular e para o cotidiano da vida. Onde pois encontramos hoje pistas desta religião? Com certeza não apenas na Igreja. Podemos encontrá-la nas colunas de aconselhamento nas revistas e nas ilustrações dos personagens fictícios dos comic strips, nas páginas de horóscopo, e no vasto mercado dos livros esotéricos. Podemos encontrá-la nas artes plásticas com suas chocantes e questionáveis obras, apontando para nossa imperceptível transcendência cotidiana. Podemos encontrá-la na terapêutica com sua oferta de vivência individual e meditações sincréticas. Podemos encontrá-la em facções políticas, que exigem relações de inclusão social e asseguram identidades pessoais. Podemos encontrá-la no consumo, através das propagandas com promessas religiosas. Podemos encontrá-la na indústria do turismo, no culto em torno à alimentação e aos exercícios físicos, que faz do paraíso uma promessa[4].

Esta religião vivida no cotidiano está, pois, presente na literatura[5], nos heróis das histórias em quadrinhos[6], na moda e em tendências de comportamento[7], na música[8], na mídia[9] e no marketing[10]e, não por último, no cinema[11]. Tudo isto revela aspectos de uma sociedade na complexidade onde as idéias, expressões, necessidades, saberes, culturas se entrelaçam e precisam, para serem acessadas e entendidas, ser olhadas na inter-relação, na re-ligação.[12]


___________________________________________


* Júlio Cézar Adam é doutor em teologia, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor na Faculdades EST, São Leopoldo/RS/Brasil.


[1] Conforme o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, avatar é cada uma das encarnações de um deus, sobretudo de Vixnu; transformação, metamorfose.

[2] ALVES, Ruben. O enigma da religião. 4. ed. Campinas: Papirus, 1988. p. 59-82.

[3] BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 205-230; RIBEIRO, Jorge Cláudio. Religiosidade jovem: pesquisa entre universitários. São Paulo: Loyola/Olho d’Água, 2009.p. 75-108.

[4] GRÄB, 1995, p. 47. (tradução do autor)

[5] MAGALHÃES, Antônio. Deus no espelho das palavras. São Paulo: Paulinas, 2000.

[6] . IRWIN, William (Coord.). Super-heróis e a filosofia: verdade, justiça e o caminho socrático. São Paulo: Madras, 2005; REBLIN, Iuri Andréas. “Para o alto e avante!”: mito, religiosidade e necessidade de transcendência na construção dos super-heróis. Protestantismo em Revista, v. 04, n. 02, mai./ago. 2005. Disponível em: http://www3.est.edu.br/nepp/revista/007/07iuri.htm,

Acesso em: 22 dez. 2008.

[7] LIPOVETSKY, Gilles, A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p. 131ss.; GALINDO, D., GUSSO, A. C. Quando o sagrado vira moda. In: MELO, José Marques de; GOBBI, Maria Cristina; ENDO, Ana Claudia Braun (Orgs.). Mídia e religião na sociedade do espetáculo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2007. p. 62-78.

[8] CALVANI, Carlos E. Momentos de beleza: teologia e MPB a partir de Tillich. In: Portal de Publicações Científicas, n. 8. Disponível em: http://www. metodista.br/ppc/correlatio/correlatio08/momentos-de-beleza-2013-teologiae- mpb-a-partir-de-tillich Acesso em 21 mar. 2010.

[9] MELO, José Marques de; GOBBI, Maria Cristina; ENDO, Ana Claudia Braun (Orgs.). Mídia e religião na sociedade do espetáculo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2007.

[10] BOLTZ, Norbert; BOSSHART, David. Kult marketing: die neuen Götter des Marktes, Düsseldorf: Econ, 1995. BECKS, Hartmut. Der Gottesdienst in der Erlebnisgesellschaft. Waltrop: Spenner, 1999.

[11] HERRMANN, Jörg. Sinnmaschine Kino: Sinndeutungen und Religion im populären Film. Gütersloh: Kaiser, 2000.; KIRSNER, Inge. Film, Fragment, Fraktal: eine kleine Kino-Apokalypse. In: STOLT, Peter; GRÜNBERG, Wolfgang; SUHR, Ulrike (Hrsg.). Kulte, Kulturen, Gottesdienste : öffentliche Inszenierung des Lebens. Göttingen : Vandenhoeck &Ruprecht, 1996. p,50-62.

[12] MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento, 2006; MORIN, Edgar. A religação dos saberes: desafio do século XXI, 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2002.


Fonte: Artigo publicado na revista Signos de Vida, número 56, julho de 2010 (publicação do Conselho Latinoamericano de Igrejas)

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Um dia de baiana

Por Clarissa Monetagudo - Jornal Extra


"Uma moça tão estudada como a senhora não pode estar usando uma roupa de macumbeira dessas, que vegonha!" Sentada em um banco da Central esperando o trem para Japeri, uma senhora olhava para as minhas roupas brancas fazendo um muxoxo. Eu, que estava "dando pinta" de candomblecista há pelo menos 40 minutos na plataforma, decidi sentar ao seu lado para testar sua reação. Conversa vai, conversa vem, ela me mostra a foto dos netos, e quando se sente íntima, me brinda com o comentário. Não entendia como uma moça "tão bacana, que falava tão bem", se vestia tão mal, como uma macumbeira.

Sem saber, a velhinha resumiu o que senti nos olhares da minha vizinha, do meu porteiro, da moça da farmácia, dos motoristas do jornal e de todos que me viram naquele dia chegando de saia e bata branca, colar de búzios - tudo comprado em umas férias nas terras de "São Salvador". Um susto. O visual tinha sido improvisado para que eu me sentisse invisível perto do grupo de belas sacerdotisas do candomblé que eu acompanharia nesse dia.

Minha pauta era flagrar reações de intolerência às religiões afro-brasileiras em um passeio pela cidade. E eu precisava estar no meio do grupo, despercebida. Cheguei à conclusão que vestir trajes de baiana nas ruas do Rio de Janeiro, cidade que aplaude todos os anos a passagem dessas senhoras de hipnotizantes saias rodadas no Carnaval faz com que a gente se sinta mais estrangeira do que uma japonesa de quimono e chinelinhos fazendo tlec-tlec no assoalho. Foi assim que me senti ao acompanhar as meninas do Candomblé em uma passeio pelo Largo da Carioca, Central do Brasil e um shopping na Tijuca.

Na Central, ganhei um cheque do Banco de Jesus de um religioso, que foi correndo atrás de mim para afirmar que "Jesus me ama". O valor do cheque é alto: "Sua Alma", e está assinado por Jesus e tudo. Algumas pessoas sussurravam "tá amarrado" no meu ouvido. Outros só olhavam mesmo, o que já causava um constrangimento. Também vi que é injusto generalizar o preconceito como sendo "coisa de evangélico". Muitos evangélicos foram muito gentis comigo durante todo o dia, inclusive alguns senhores que pregavam no trem.

No shopping, vendedoras de uma joalheria quase fizeram o sinal da cruz ao nos ver passar. A vizinha, no elevador do prédio, não levantou os olhos para me encarar. Lembrei que uma amiga meio barraqueira do segundo grau não hesitaria em perguntar: "Vem cá, tô pintada de verde?". Mas eu não perguntei. Apenas concluí o quanto são corajosas essas pessoas que mantém as tradições africanas contra tudo e todos. Que agüentam nas costas o peso de séculos de discriminação. Eu, que sempre amei as músicas de Caymmi e os livros de Jorge Amado, e preciso ir pelo menos uma vez por ano à Bahia, passei a ser ainda mais fã, mais apaixonada pela cultura africana e seu povo. É o povo do santo. Povo brasileiro. E merece nosso respeito.

Reportagem especial do Jornal Extra

domingo, 11 de maio de 2008

Qual a linguagem para o ensino religioso?



O ensino religioso parte integrante da formação básica do cidadão alicerça sua linguagem nos princípios básicos da cidadania que se concretizam na formação integral do educando. Para nortear esta concepção pode-se tomar como parâmetro os princípios contidos nas Diretrizes Curriculares para o Ensino Fundamental e os princípios e fins da Educação Nacional da lei nº 9.394/96 que objetivam orientar as escolas na elaboração de suas ações pedagógicas.

No ensino religioso esses princípios apresentam uma relação próxima com o campo de atuação deste ensino, podendo expressar muito bem a linguagem que é utilizada no desenvolvimento dos conteúdos, refletindo algumas questões básicas da educação. Se for ensino, ensina o quê? Na linguagem pedagógica do ensino religioso, podem ser observados os seguintes critérios e atitudes para a mudança e para a construção de valores, tais como:

a) a valorização das experiências religiosas previamente construídas pelos alunos e alunas, favorecendo a capacidade de vivenciar uma relação emancipada com as diferentes culturas, considerando os princípios éticos da autonomia, da responsabilidade e do respeito ao bem comum;

b) o exercício da criatividade e do respeito a ordem democrática em sala de aula, a partir da articulação dos conhecimentos, das discussões, debate e do desenvolvimento com base nos princípios políticos, caracterizados pelos direitos e deveres da cidadania e do respeito ao diferente que se manifesta nas culturas e tradições religiosas;

c) a criação de condições para que cada educando(a) construa sua identidade, para saber acolher, conhecer, conviver e aprender a ser, valorizando e respeitando o outro, superando preconceitos que desvalorizam qualquer experiência religiosa, tendo como referência os princípios estéticos da sensibilidade e da criatividade.

Esta linguagem tem sentido de busca, de entendimento que responda às questões existenciais: Quem sou ? De onde vim? Para onde vou? Diante dessas indagações o ser humano desenvolve competências para relacionar-se consigo, com a natureza, a sociedade e o transcendente, definindo seu projeto pessoal e coletivo de vida.

No desenvolvimento dos eixos temáticos do ensino religioso e nos blocos de conteúdos apresentados nos Parâmetros Curriculares Nacionais, a compreensão dessa linguagem aponta para a interação entre quem aprende e quem ensina para construção do conhecimento histórico cultural, pois nenhuma cultura é insignificante.

Essa linguagem possibilita e desenvolve a sensibilidade para a busca do diálogo, da tolerância e da convivência pacífica com as manifestações religiosas, respeitando a pluralidade cultural religiosa brasileira.


Profa. Ângela Holanda – Maceió/ AL


Fonte: Grupo de Pesquisa Educação e Religião
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segunda-feira, 5 de maio de 2008

O diálogo Inter-religioso (segundo o Islã)


Sheikh Abu Osman*


Disse Deus o Altíssimo: “Falai ao próximo com benevolência” Alcorão 2:83. E Disse também: “Convoca (os humanos)  à senda do teu Senhor com sabedoria, pela exortação e dialoga com eles com benevolência” Alcorão 16:125  
Disse o profeta Muhammad (S.A.A.S.): “A boa palavra equivale uma caridade”. Existem no Alcorão 527 versículos que falam sobre o diálogo.

As orientações do Alcorão tanto quanto a do profeta Muhammad (S.A.A.S.), são claras quanto o diálogo entre os muçulmanos entre si  e entre os não muçulmanos também. Tais orientações  reconhecem que os seres humanos podem divergir quanto as suas idéias e mentalidades, isso é natural, e os muçulmanos têm a obrigação moral e religiosa de respeitar as opinões diferentes e pensamentos diferentes e consideram que os diferentes pensamentos poderão desenvolver melhor o convívio entre as pessoas, uma vez que nós muçulmanos somos proibidos de impor a nossa religião aos demais.

O Islam além de tudo isso, estabelece regras e normas para o diálogo, são elas:

• Tenha boa intenção voltada para Deus, e não para alcançar vitória própria;
• Escolha o momento adequado;
• Tenha conhecimento do assunto do diálogo;
• Reconheça que as pessoas não são iguais na compreensão;
• Não confisque o tempo da fala e deixe os outros falarem também;
• Saiba ouvir e não interrumba quem fala;
• Policie a si mesmo;
• Fale de uma forma clara;
• Dê exemplos e utilize estórias para aproximar as idéias;
• Explore os pontos comuns;
• Saiba parar no momento exato, se o diálogo não for frutífero;
• Não perca o controle emocional;
• Diga não sei, quando não souber;
• Reconheça o seu erro;
• Não seja radical;
• Seja fiel ao assunto do diálogo;
• Certifique-se quanto às informações a apresentar;
• Respeite o outro lado;
• Nem tudo pode ser dito em determinadas situações;
• Diferencie entre a idéia e seu portador e não confunda os dois;
• Seja justo;
• Chame as pessoas pelo melhor nome;
• Use argumentos firmes;
• A diferença deve trazer amor e não ódio;
• Tente chegar num resultado;
• Não se irrite;
• Não aumente a sua voz mais do que necessário.

* Sheikh Abdelbagi Sidahmed Osman, natural do sudão, nacionalidade brasileira, Imam da comunidade Muçulmana do RJ de 1993 e atual presidente desde 2000 representante da Liga Islâmica Mundial e da Organização Islâmica para América Latina no Brasil.

site: www.sbmrj.org.br 

Fonte: Amai-vos  

quarta-feira, 30 de abril de 2008

sábado, 5 de abril de 2008

O elo perdido

Para a pesquisadora Mary Evelyn Tucker, o ser humano precisa se lembrar de que ainda faz parte da natureza

Maria Zulmira de Souza

A americana Mary Evelyn Tucker é uma estudiosa das religiões orientais, como confucionismo, budismo e hinduísmo. Já escreveu diversos livros em que procura retraçar as ligações entre religião e ecologia e a busca pelo equilíbrio entre as exigências de uma vida moderna e a preservação da natureza. Coordena – junto com John Grim,um pesquisador das culturas nativas da América do Norte, com quem está casada há 28 anos, mantendo uma relação de companheirismo intelectual e vida conjugal – o Fórum de Religião e Ecologia, um canal mundialmente famoso de debates sobre o tema.

Através do recheado portal www.religionandecology.com, de inúmeras publicações e seminários no Centro de Estudos das Religiões do Mundo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos,Mary busca reconectar o homem aos valores sagrados do mundo natural.Acredita que depois de se afastar do destino do homem na Terra, dando preferência ao Céu, as principais religiões ocidentais podem ter desempenhado um papel decisivo na mudança como a humanidade se relaciona com o planeta.

Mary (acompanhada de John) esteve no Brasil no último mês de julho, participando do fórum Religião, Ciência e Ambiente, na Amazônia, promovido pela Patriarca da Igreja Ortodoxa Grega Bartolomeu Primeiro.


Você acha que vivemos uma crise ética?
Acho que há uma enorme crise ética relacionada ao meio ambiente. Estamos mudando o padrão da evolução natural para sempre, com a extinção de espécies, a alteração do ciclo das águas, das chuvas, como acontece na Amazônia atualmente. Isso é irreversível. Precisamos relembrar que fazemos parte desse processo da natureza. É uma crise moral e isso é muito aflitivo. As mudanças climáticas ilustram isso muito bem. O que vai acontecer aqui na Amazônia ou na Indonésia? É um grande pesar, mas os Estados Unidos, com 4% da população mundial, usam 25% dos recursos naturais do planeta. As pessoas ao redor do mundo querem transformações e lideranças morais.


Há uma mudança na maneira como algumas religiões encaram a natureza?
As religiões estão emergindo para uma fase ecológica. A crise que estamos vivendo chama as religiões a isso, a reexaminar suas doutrinas, práticas e rituais e reconfigurá-los para o mundo moderno. O diálogo ambiental das tradições religiosas já está ocorrendo, como no Parlamento das Religiões em Chicago, em 1993, na África do Sul, em 1999, nas fortes indicações do patriarcado da Igreja Ortodoxa Grega, entre outras manifestações.


Dá para afirmar que estamos afastados da natureza?
Acho que há muitas razões para estarmos separados do mundo natural. Em parte porque a ciência quer estudar a natureza objetivamente. Em parte por conta da explosão populacional para mais de 6 bilhões de pessoas em apenas um século. Essa alienação da natureza caracterizou especialmente o século 20, com uma sucessão de guerras, revoluções e mudanças. Passamos de um período de 10 mil anos de história vivendo em pequenas comunidades próximas aos rios na África, Ásia e América Latina para uma explosão de cidades. Essa é uma imensa mudança em nossa psique, em nosso espírito.


É possível ser religioso mesmo sem ter uma religião específica?
Para mim é possível ser espiritualista sem estar ligado a uma religião ou fé específica. Acho que a maior parte do movimento ambientalista se inspirou, como John costuma dizer, num senso de beleza, de complexidade e integração com a própria natureza. É ver uma semente, uma planta, uma flor ou a nós mesmos como uma parte microscópica de algo muito maior, do macrocosmo, do sistema solar ou até do Universo. Podemos tomar como exemplo que a maior parte das pessoas sente-se renovada e restaurada ao ver um pôr-do-sol, ao estar na praia, na montanha. Isso vai nos ajudar no movimento ambiental, se pensarmos de maneira mais cuidadosa.


Como foi a experiência de conhecer a Amazônia?
Extraordinária. É impressionante o tamanho, a escala, a diversidade e a serenidade dos trechos de rio que percorremos nos pequenos barcos. É lindo. Por outro lado, ver diretamente os problemas das comunidades locais, dos povos indígenas, os imensos campos de soja e a destruição que está acontecendo nos últimos anos – tudo isso é muito perturbador.


Há uma receita pessoal para estar em equilíbrio com a natureza?
Todos nós estamos em busca da nossa receita. Todos nós estamos em busca dessa intimidade, desse senso de pertencer a uma comunidade, buscando um caminho de volta à comunidade terrestre. Eu digo isso de uma maneira muito prática também. Naturalmente considero que fazemos parte de uma história maior, que somos feitos da mesma matéria que compõe o Universo, os mesmos materiais que estão no nosso corpo estão nas estrelas, por exemplo. Compreendendo essa conexão em larga escala, isso me equilibra e me inspira. Nós procuramos esse alimento que nos energize e nós queremos esse alimento conectado ao mundo natural. E num sentido queremos água pura para beber. E tem o fogo. O Brasil tem uma música que traz o sentido do fogo, você sente fogo quando as pessoas se cumprimentam. É o fogo da música, da intimidade, do cumprimento, do beijo, do abraço. Acho que o Brasil pode nos ajudar a achar esse novo equilíbrio.

Você e John são casados, têm as mesmas preocupações e se dedicam ao mesmo tema. Como é trabalhar juntos?
Isso não seria possível se não tivéssemos compromisso com uma visão mais ampla, com uma parceria. Sou muito grata por ter um companheiro que compartilhe esse compromisso. Ele trabalha mais com as religiões indígenas, e eu com as orientais. Aprendemos muito um com o outro.


Fonte: Vida Simples