Todo diálogo inter-religioso traz a exigência de verdadeiros e profundos diálogos interpessoais que, por sua vez, exigem, necessariamente, diálogos intrapessoais. Templos, Mesquitas e Terreiros não dialogam, mas sim os seres humanos que os constroem. Isso significa dizer que o percurso ecumênico ou macroecumênico é um itinerário implicativo para todos os atores envolvidos. Portanto, não é um caminho asséptico e nem isento de riscos. Se é verdade que todo diálogo autêntico reclama a identidade de cada sujeito envolvido é, igualmente, verdade que cada parceiro deverá trazer a disposição de alterar-se positivamente, a partir do contato com o diferente. O encontro com o "outro" (alteridade) provoca o deslocamento ecoico e a superação de enclausuramentos eclesiásticos que impedem as tradições religiosas de abrirem-se às outras leituras de fé e a uma compreensão mais profunda do mistério de Deus, que supera quaisquer falas sobre Ele, pois Deus é sempre maior! Desse modo, a afirmação positiva do pluralismo religioso e da consequente liberdade de opção no campo da vivência da fé exigem um alargamento progressivo da consciência, um caminho de amadurecimento e de superação de barreiras externas e internas. Afirmar a identidade, condição para todo diálogo verdadeiro, não significa enclausurar-se narcisicamente em si mesmo, como se o outro nada acrescentasse ou alterasse. Não há, nessa perspectiva, maior prejuízo para o diálogo do que a recusa da identidade, e não há maior prejuízo para a identidade do que a recusa do diálogo. No encontro com o outro, cada tradição religiosa é chamada com mais intensidade a colocar-se diante de si mesma, percebendo com mais clareza suas luzes e sombras. O trabalho ecumênico, portanto, exige fôlego de bom caminheiro, disposição para singrar novos mares e abertura a novas e surpreendentes sínteses; exige, pois, uma identidade aberta, capaz de integrar positivamente alteridade e vulnerabilidade, rigidez e flexibilidade. Escreveu, de forma celebérrima, o então cardeal Joseph Ratzinger, atual papa Bento VXI acerca do caminho do diálogo: "É um processo de abertura, de abrir-se para o diferente, para os outros. Procuremos imaginar a arte que é alguém saber escutar. Não se trata de uma habilidade, como o manuseio de uma máquina, mas sim de um poder ser, em que a pessoa é exigida como um todo. Ouvir significa conhecer e reconhecer o outro, deixá-lo penetrar no espaço do próprio eu (...) Após o ato de ouvir, eu sou outro, meu próprio ser foi enriquecido e aprofundado, por se haver fundido com o ser do outro, e, no outro, com o ser do mundo". Assim como afirmou o filósofo Heráclito que ninguém pode banhar-se duas vezes no mesmo rio sendo o mesmo, assim também nenhuma tradição religiosa segue inalterada num processo de encontro e diálogo positivo com outras religiões. Desse modo, católicos, evangélicos, protestantes, candomblecistas, umbandistas, muçulmanos, judeus... todos , irremediavelmente, apresentamo-nos para o diálogo com nossas identidades, mas sem que percebamos que a simples presença e interpelação do diferente altera, surpreende e desbanca nossos absolutismos internos. Nesse caminho, afirmamos a presença desafiante do outro e experimentamos coletivamente a oportunidade sagrada de sermos melhores, mais autênticos, mais plurais e divinamente mais re-ligados. Para concluir e confessar, posso testemunhar que, hoje, a partir do engajamento na Comissão de Combate a Intolerância Religiosa (CCIR), em que tenho a oportunidade de estabelecer vínculos de amizade e trabalho com a diversidade religiosa do Brasil, começo a desconfiar que não sou nem a mesma pessoa e nem tão pouco o mesmo cristão católico de outrora, graças a Deus!!! Escrito por padre Gegê, pároco da Paróquia Santa Bernadete, membro do Fórum Dom Helder Câmara e da CCIR Editado por Ricardo Rubim Leia mais artigos em www.eutenhofe.org.br
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Ecumenismo e identidade aberta são muito importantes a todos os religiosos
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
O filme Avatar como vivência religiosa e as implicações para a teologia prática
Nas férias de verão, assim como alguns milhões de pessoas no planeta, fui assistir o filme Avatar, do diretor James Cameron. Além da empolgante propaganda na TV, sabia muito pouco sobre o filme. Não imaginava, no entanto, a intensidade de “religião” que encontraria nas quase três horas de filme.
PARTE I:
Não só os avatares do filme deixavam seus corpos humanos para ingressarem no mundo dos na’vis. Todos nós, espectadores, éramos ligados a uma experiência, muito além do que um simples filme. Isto já seria um aspecto suficientemente religioso para se pensar. Ir ao cinema tem algo de ritual – a pipoca, as luzes que se apagam, o silêncio–, algo de simbólico – luz e movimento que nos conectam a histórias, mitos do lado de cá e da lá da tela –, algo de transcendente – vamos além de nós mesmos. Todos estes elementos são em si religiosos. Mas é no que se refere ao conteúdo, à história da Avatar, que aqui quero mais me deter. Começando pelo próprio título “Avatar”[1] termo proveniente do hinduismo, as diversas conexões estabelecidas entre seres imanentes e transcendentes, a Árvore das Almas, a divindade Eywa, localizada no lugar mais central e sagrado do mundo de Pandora.
Compreendo que é também tarefa da teologia e em especial da teologia prática buscar entender estes elementos “religiosos” presentes no filme e que, também ou justamente por isto, arrastaram milhões de pessoas de diferentes culturas e religiões. Estaria o cinema, através de filmes como Avatar, suprindo a sede religiosa do ser humano? Seria o cinema o grande culto dos habitantes da atualidade? O que tem a teologia cristã a ver com tudo isto? O que a teologia prática pode tirar desta “religião nas telas dos cinemas”?
Fenômeno da religião vivida
No limiar do século XXI vivemos um fenômeno religioso. Contra todas as pressuposições, vivemos um retorno e um incremento do religioso[2]. Ou seja, contrário às previsões de que o ser humano da era científica e tecnológica seria a-religioso, emancipado, vivemos um verdadeiro avivamento da religião, tanto da institucional, como da religiosidade que perpassa a cultura[3]. O retorno do religioso na contemporaneidade é um fenômeno complexo, multifacetado. Uma das suas características é a independência da religião de suas respectivas instituições. Vive-se uma transmigração de fronteiras confessionais. Outra característica é a manifestação do religioso na esfera dita “profana”, ou seja, fora da instituição religiosa, fora da igreja instituição, fora da própria esfera religiosa. Mais do que sincretismo, mais que transgressão de fronteiras, se diluem as próprias fronteiras entre sagrado e profano. É dentro desta característica, que esta análise do filme Avatar se enquadra.
Estamos vivenciando a religião que migrou para esfera da cultura popular e para o cotidiano da vida. Onde pois encontramos hoje pistas desta religião? Com certeza não apenas na Igreja. Podemos encontrá-la nas colunas de aconselhamento nas revistas e nas ilustrações dos personagens fictícios dos comic strips, nas páginas de horóscopo, e no vasto mercado dos livros esotéricos. Podemos encontrá-la nas artes plásticas com suas chocantes e questionáveis obras, apontando para nossa imperceptível transcendência cotidiana. Podemos encontrá-la na terapêutica com sua oferta de vivência individual e meditações sincréticas. Podemos encontrá-la em facções políticas, que exigem relações de inclusão social e asseguram identidades pessoais. Podemos encontrá-la no consumo, através das propagandas com promessas religiosas. Podemos encontrá-la na indústria do turismo, no culto em torno à alimentação e aos exercícios físicos, que faz do paraíso uma promessa[4].
Esta religião vivida no cotidiano está, pois, presente na literatura[5], nos heróis das histórias em quadrinhos[6], na moda e em tendências de comportamento[7], na música[8], na mídia[9] e no marketing[10]e, não por último, no cinema[11]. Tudo isto revela aspectos de uma sociedade na complexidade onde as idéias, expressões, necessidades, saberes, culturas se entrelaçam e precisam, para serem acessadas e entendidas, ser olhadas na inter-relação, na re-ligação.[12]
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* Júlio Cézar Adam é doutor em teologia, pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor na Faculdades EST, São Leopoldo/RS/Brasil.
[1] Conforme o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, avatar é cada uma das encarnações de um deus, sobretudo de Vixnu; transformação, metamorfose.
[2] ALVES, Ruben. O enigma da religião. 4. ed. Campinas: Papirus, 1988. p. 59-82.
[3] BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 205-230; RIBEIRO, Jorge Cláudio. Religiosidade jovem: pesquisa entre universitários. São Paulo: Loyola/Olho d’Água, 2009.p. 75-108.
[4] GRÄB, 1995, p. 47. (tradução do autor)
[5] MAGALHÃES, Antônio. Deus no espelho das palavras. São Paulo: Paulinas, 2000.
[6] . IRWIN, William (Coord.). Super-heróis e a filosofia: verdade, justiça e o caminho socrático. São Paulo: Madras, 2005; REBLIN, Iuri Andréas. “Para o alto e avante!”: mito, religiosidade e necessidade de transcendência na construção dos super-heróis. Protestantismo em Revista, v. 04, n. 02, mai./ago. 2005. Disponível em: http://www3.est.edu.br/nepp/revista/007/07iuri.htm,
Acesso em: 22 dez. 2008.
[7] LIPOVETSKY, Gilles, A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade de hiperconsumo. São Paulo: Cia das Letras, 2006. p. 131ss.; GALINDO, D., GUSSO, A. C. Quando o sagrado vira moda. In: MELO, José Marques de; GOBBI, Maria Cristina; ENDO, Ana Claudia Braun (Orgs.). Mídia e religião na sociedade do espetáculo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2007. p. 62-78.
[8] CALVANI, Carlos E. Momentos de beleza: teologia e MPB a partir de Tillich. In: Portal de Publicações Científicas, n. 8. Disponível em: http://www. metodista.br/ppc/correlatio/correlatio08/momentos-de-beleza-2013-teologiae- mpb-a-partir-de-tillich Acesso em 21 mar. 2010.
[9] MELO, José Marques de; GOBBI, Maria Cristina; ENDO, Ana Claudia Braun (Orgs.). Mídia e religião na sociedade do espetáculo. São Bernardo do Campo: UMESP, 2007.
[10] BOLTZ, Norbert; BOSSHART, David. Kult marketing: die neuen Götter des Marktes, Düsseldorf: Econ, 1995. BECKS, Hartmut. Der Gottesdienst in der Erlebnisgesellschaft. Waltrop: Spenner, 1999.
[11] HERRMANN, Jörg. Sinnmaschine Kino: Sinndeutungen und Religion im populären Film. Gütersloh: Kaiser, 2000.; KIRSNER, Inge. Film, Fragment, Fraktal: eine kleine Kino-Apokalypse. In: STOLT, Peter; GRÜNBERG, Wolfgang; SUHR, Ulrike (Hrsg.). Kulte, Kulturen, Gottesdienste : öffentliche Inszenierung des Lebens. Göttingen : Vandenhoeck &Ruprecht, 1996. p,50-62.
[12] MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento, 2006; MORIN, Edgar. A religação dos saberes: desafio do século XXI, 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2002.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
4ª JORNADA ECUMÊNICA
01 de setembro de 2010 Última Atualização ( 06 de setembro de 2010 )
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Unidade cristã ocupa o centro da agenda do CMI
Para consegui-lo, o CMI conta com dons únicos: uma sólida tradição de serviço, uma capacidade de alcance mundial graças a suas igrejas membros, e um talentoso pessoal. Com tais dons o organismo que reúne ortodoxos, anglicanos, evangélicos e protestantes deve encarar os desafios urgentes pendentes no mundo. Tveit foi eleito pelo Comitê Central do CMI, reunido em Genebra de 26 de agosto a 2 de setembro. Na análise do pastor luterano norueguês, as finanças no mundo é um tema moral, e um dos desafios a vencer é a injustiça econômica. “O paradigma da economia mundial que domina em nosso mundo marca as vidas das pessoas e das comunidades", frisou. No movimento ecumênico, agregou, é preciso falar mais sobre as divisões Norte-Sul, destacando que as divisões não são só geográficas. "Elas também se expressam ao interior de nossos países, entre ricos e pobres em nossas sociedades", disse. Para Tveit, "as igrejas têm um grande potencial para derrubar essas barreiras e devem chegar a um entendimento comum sobre como enfrentar a injustiça econômica." Outro desafio, apontou, é o aprofundamento das relações ecumênicas. "Evangélicos e pentecostais começam a se abrir à concepção de que responder às necessidades de nossos semelhantes não é fazer política, senão responder ao chamado a preocupar-nos com o nosso próximo", enfatizou. O recém eleito secretário-geral do CMI definiu a solidariedade entre cristãos como outra prioridade da época. "Os cristãos também são parte dos que sofrem neste mundo, assim que o nosso acompanhamento na defesa de seus direitos é importante.” Quanto ao diálogo inter-religioso, Tveit disse que hoje essa é uma tarefa especialmente importante em relação ao Islã. Ele mencionou as experiências positivas que vivenciou na Noruega na qualidade de moderador do grupo de contato entre a Igreja Luterana da Noruega e o Conselho Islâmico do país. A premissa ao diálogo é simples, disse: "Ver uns aos outros como seres humanos, e todas as religiões nos chamam a isso". 
domingo, 4 de maio de 2008
"Carismas precisam se unir para formar Igreja de Jesus Cristo"
Danusa Rego
Lavrinhas, SP - Canção NovaTermina hoje o 1º Encontro de Irmãos Evangélicos e Católicos com o tema "Que todos sejam um". A Comissão Episcopal Pastoral para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso é a responsável pela organização do evento. Nesta manhã, um dos destaques foi a colocação de Monsenhor Jonas Abib, fundador da Canção Nova, presidente nacional e vice-presidente internacional da Fraternidade das Novas Comunidades, na qual ele deu seu testemunho como sacerdote e fundador. Monsenhor Jonas assinalou que as raízes da Canção Nova estão no movimento dos Focolares, "que tem o carisma da unidade".
Cerca de 80 representantes de denominações religiosas do Brasil e de países como Argentina, Inglaterra, Estados Unidos e Itália presenciaram o encontro, entre eles o assessor da CNBB para o Diálogo Ecumênico e Inter-religioso, Padre Marcial Maçaneiro, o presidente internacional da Fraternidade das Novas Comunidades e fundador da Comunità di Gesù (Itália), Matteo Calisi, o presidente da Comissão Episcopal para o Ecumenismo e Diálogo Inter-Religioso, Dom José Alberto Moura, o presidente da Comunhão Renovada de Evangélicos e Católicos (Creces), Jorge Himitian e a fundadora Comunidade Bom Pastor, Dóris de Carvalho, também falaram sobre o tema unidade.
"Eu posso dizer que fui gerado para Cristo no encontro pessoal com Jesus que tive no 'berço do carisma da unidade', ou seja, em uma mariápole, do movimento dos Focolares. E daí surgiu tudo aquilo que Deus quis para a Canção Nova e tudo aquilo que Deus quis com a união dos carismas. Vários segmentos evangélicos são carismas especiais. Precisam se unir para formar Igreja de Jesus Cristo", disse Monsenhor Jonas destacando que o esforço pela unidade faz parte de sua missão.
Em sua colocação, testemunhou desde seu ingresso no Seminário Salesiano, com 12 anos, até os dias de hoje, quando a Comunidade Canção Nova completa 30 anos. Monsenhor Jonas ressaltou a necessidade de buscar um encontro pessoal com Jesus e um batismo no Espírito Santo: "Quando tive minha experiência pessoal com o Senhor, através da Palavra, comecei a orar como nunca havia orado na minha vida. Já conhecia a Bíblia, já pregava, e pregava bem, mas era como se as palavras, a partir daquele momento, saltassem daquele Livro. Até hoje eu não sou aquilo que Deus quer, mas não sou aquilo que eu era".
Para Padre Marcial Maçaneiro, em Cristo todos nós já fomos reconciliados: "Segundo o Apóstolo Paulo, Jesus nos confia um serviço, o ministério da reconciliação. Quando Cristo nos diz que todos somos reconciliados nele, Ele quer dizer toda humanidade redimida e, ainda mais, os batizados de qualquer igreja cristã. Se uma pessoa é devidamente batizada em nome da Trindade é membro do corpo de Cristo".
"Em Jesus nós fomos reconciliados. Precisamos acolher esta graça e colocá-la em prática nos nossos relacionamentos", acrescentou Padre Maçaneiro. Segundo o pastor da Confissão Anglicana, Tony Palmer, as barreiras existem e estão nas doutrinas, nas formas de interpretar a Sagrada Escritura. Entretanto, acrescentou: "Em primeiro lugar devemos entender que somos diferentes mas que, nem por isso, devemos ser divididos. A diversidade é algo belo".
Fonte: Canção Nova
sábado, 5 de abril de 2008
A queda das barreiras ecumênicas

Diálogo e ecologia. A teologia teoantropocósmica de Leonardo Boff.
A ecologia, por outro lado, representa, hoje, a preocupação fundamental, que não fica mais restrita aos grupos de ambientalistas ou aos herdeiros da sensibilidade de Francisco de Assis. Tornou-se uma questão mundial central, pois os relatórios de especialistas, ou mesmo a constatação empírica, revelam que a casa-comum - a mãe-Terra - está doente e sofre junto com seus filhos as conseqüências do modelo de exploração e de desenvolvimento que, há séculos, predomina em quase todos os lugares, ganhando enorme proporção, neste mundo globalizado.
Diálogo e Ecologia, duas questões que se articulam e expressam a emergência de uma consciência ao mesmo tempo ecológica e dialogante. A ecologia sai do nicho ambientalista e torna-se assunto e tarefa de todos. O diálogo inter-religioso deixa de ser preocupação só de teólogos ou religiosos dirigentes e passa para a agenda política e pedagógica. Duas grandes áreas da reflexão ganham atualidade e urgência: Teologia das Religiões e Ecologia.
A pesquisa sobre essa articulação encontrou na teologia de Leonardo Boff, a partir do paradigma ecológico, a possibilidade de se cumprir um dos grandes desafios da atualidade: promover o encontro, o dialogação espiritual, fraterna e ética, gerando a re-ligação e a dialogação de todos com todos, verdadeiro diálogo teoantropocósmico.
Três capítulos buscam dar estrutura à dissertação. O primeiro concentra-se em construir o marco teórico, que servirá de fundamento para a análise da teologia de Boff. Buscando-se o apoio da categoria paradigma de Thomas Kuhn (sentido sociológico e filosófico) e na sua aplicação própria ao campo teológico, do excelente trabalho de Hans Küng, pode-se analisar a mudança operada na teologia de Boff, concluindo-se que, efetivamente houve uma mudança de paradigma. Mesmo sendo um autor de grande produção teológica, que escreveu sobre diversos tratados, e mesmo apresentando as continuidades presentes no atual estágio teológico de seu trabalho, suas descontinuidades não deixam dúvida: o paradigma ecológico representa uma mudança paradigmática, uma grande transformação, uma mudança de macroparadigma: a ecologia.
Para tornar compreensível essa virada teológica a categoria cosmoteândrica (Raimon Panikkar), neste trabalho assumida ecologicamente e criticamente (andrós x anthrôpos) como teoantropocósmica, foi importante, pois ofereceu inteligibilidade à nova construção teológica pericorética de Leonardo Boff.
E a articulação de toda mudança se deu na concepção de ecologia. Essa concepção, em Leonardo, revelou-se e se revela hoje, profundamente libertadora, pois transcende às visões parciais e redutoras, buscando integrar todos os aspectos e sujeitos da realidade. Assim, ambiente, sociedade, política, economia, mente, ética e espiritualidade e todas as dimensões humanas devem ser transformadas pela nova centralidade: o inter-relacionamento e o cuidado com tudo que mantém e garante a Vida.
O sujeito e o lugar teológico se ampliam. Não só o ser humano tem subjetividade, ela é estendida à natureza, ao cosmos todo. O fazer teológico mantém-se fundamentalmente preocupado com a luta pela Vida, mas de todos e de todas as formas. Assim, a grande intuição e contribuição teológica latino-americana permanece com toda a vitalidade e pode continuar testemunhando o Ressuscitado. A práxis eclesiológica de rede-de-comunidades-de-base , democrática e inclusiva, continua a se apresentar como a resposta atual e universalizável da utopia do Reino transfigurado, a Ressurreição. Garante o testemunho sacramental da comunhão trinitária e se abre aos sinais dos tempos, assumindo sua tarefa de ser sinal da dimensão crística cósmica, anunciando que a Vida vence.
Essa teologia foi qualificada como teoantropocósmica, articulando a concepção de Deus (resgatando o Panenteísmo, a Pneumatologia, a Cristologia cósmica e a Trindade cósmica) de ser humano (nó-de-relações) e de mundo (a cosmologia do jogo, da complexidade que se apresenta una na diversidade de formas) numa relação de uma pericórese recíproca.
Como teologia teoantropocósmica, a teologia de Leonardo Boff surge como verdadeira Teologia das Religiões, oferecendo perspectivas teóricas e praxísticas para o diálogo inter-religioso.
Teoricamente, o conceito teoantropocósmico oferece a base para o inter-relacionamento, o encontro e o diálogo, pois resgata a experiência originária, garantindo um patamar universal, o estar-com-o-outro na sua ex-sistência, e chamando todos a descobrir a imensa vida que se articula de mil formas e em todos os seres. Aqui, o diálogo se estende da ciência, em suas últimas descobertas, às pessoas e comunidades que não perderam a sensibilidade pelo Sentido Último e que são capazes de contemplá-lo numa flor, numa criança, num inocente que sofre.
Mas a teologia teoantropocósmica também se apresenta como práxis, fiel à sua origem latino-americana. Práxis que nasce da mística e a ela retorna, mas que se encarna e transparece no encontro existencial nascido do choque das diversas situações de vida e da realidade. Aqui, inaugura-se a realização do sonho do encontro: uma fraternidade cósmica que não tem pátria, classe, gênero, faixa etária, situação política ou religiosa. É a ação de re-construir a família cósmica. Essa re-construção tem como referência um novo ethos alicerçado na compaixão e no cuidado. A práxis, portanto, também se mantém fiel ao sentido pericorético teoantropocósmico: mística, fraternidade e ética se implicam mutuamente, todo o tempo.
Por fim, a teologia de Leonardo Boff, no paradigma ecológico, representa para a Teologia das Religiões um paradigma denominado neste trabalho de inclusivismo sui generis, teoantropocósmico. Esse inclusivismo é garantido pela centralidade ontológica que Jesus Cristo tem na visão teológica de Leonardo Boff. O mistério pascal inaugura uma mudança ecológica qualitativa: a consciência da filiação divina; e abre o ser humano e o cosmos ao verdadeiro sentido: espelhar o Mistério de Comunhão Trinitária. Jesus Cristo Cósmico é modelo para o ser humano, a plena consciência e a máxima proximidade de Deus à humanidade, mas também, pela Ressurreição é o horizonte que transforma e transfigura tudo, que abre a todos e a tudo a participação e integração em Deus. Realiza-se, assim, o grande encontro, a total dialogação, a plena re-ligação cósmica.
E a conclusão é, portanto, que Leonardo Boff oferece uma teologia cristã aberta, que dialoga e conclama ao diálogo. Inclui e reúne todos em torno da Fonte que gera a vida. É uma teologia que se aprofunda na mística, convoca à encarnação e chama a todos a assumirem sua filiação ao Mistério Inefável, superando as diferenças, ao mesmo tempo se enriquecendo delas, realizando o diálogo ecológico e expressando a unidade pericorética teoantropocósmica.
Diálogo e Ecologia apresentam-se, portanto, como uma reflexão profundamente atual, indicando uma forma de responder teológica e praticamente à urgência, diante dos desafios por que passam a humanidade e o sistema Terra. Que essa reflexão estimule a continuação da pesquisa e possa se somar à luta de todos aqueles que buscam construir um mundo reconciliado, lugar do encontro teoantropocósmico e da dia-fania de Deus, origem, fonte e sentido de onde jorra todo mistério da vida.
Fonte: Instituto Teológico Franciscano