terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Um dia de baiana

Por Clarissa Monetagudo - Jornal Extra


"Uma moça tão estudada como a senhora não pode estar usando uma roupa de macumbeira dessas, que vegonha!" Sentada em um banco da Central esperando o trem para Japeri, uma senhora olhava para as minhas roupas brancas fazendo um muxoxo. Eu, que estava "dando pinta" de candomblecista há pelo menos 40 minutos na plataforma, decidi sentar ao seu lado para testar sua reação. Conversa vai, conversa vem, ela me mostra a foto dos netos, e quando se sente íntima, me brinda com o comentário. Não entendia como uma moça "tão bacana, que falava tão bem", se vestia tão mal, como uma macumbeira.

Sem saber, a velhinha resumiu o que senti nos olhares da minha vizinha, do meu porteiro, da moça da farmácia, dos motoristas do jornal e de todos que me viram naquele dia chegando de saia e bata branca, colar de búzios - tudo comprado em umas férias nas terras de "São Salvador". Um susto. O visual tinha sido improvisado para que eu me sentisse invisível perto do grupo de belas sacerdotisas do candomblé que eu acompanharia nesse dia.

Minha pauta era flagrar reações de intolerência às religiões afro-brasileiras em um passeio pela cidade. E eu precisava estar no meio do grupo, despercebida. Cheguei à conclusão que vestir trajes de baiana nas ruas do Rio de Janeiro, cidade que aplaude todos os anos a passagem dessas senhoras de hipnotizantes saias rodadas no Carnaval faz com que a gente se sinta mais estrangeira do que uma japonesa de quimono e chinelinhos fazendo tlec-tlec no assoalho. Foi assim que me senti ao acompanhar as meninas do Candomblé em uma passeio pelo Largo da Carioca, Central do Brasil e um shopping na Tijuca.

Na Central, ganhei um cheque do Banco de Jesus de um religioso, que foi correndo atrás de mim para afirmar que "Jesus me ama". O valor do cheque é alto: "Sua Alma", e está assinado por Jesus e tudo. Algumas pessoas sussurravam "tá amarrado" no meu ouvido. Outros só olhavam mesmo, o que já causava um constrangimento. Também vi que é injusto generalizar o preconceito como sendo "coisa de evangélico". Muitos evangélicos foram muito gentis comigo durante todo o dia, inclusive alguns senhores que pregavam no trem.

No shopping, vendedoras de uma joalheria quase fizeram o sinal da cruz ao nos ver passar. A vizinha, no elevador do prédio, não levantou os olhos para me encarar. Lembrei que uma amiga meio barraqueira do segundo grau não hesitaria em perguntar: "Vem cá, tô pintada de verde?". Mas eu não perguntei. Apenas concluí o quanto são corajosas essas pessoas que mantém as tradições africanas contra tudo e todos. Que agüentam nas costas o peso de séculos de discriminação. Eu, que sempre amei as músicas de Caymmi e os livros de Jorge Amado, e preciso ir pelo menos uma vez por ano à Bahia, passei a ser ainda mais fã, mais apaixonada pela cultura africana e seu povo. É o povo do santo. Povo brasileiro. E merece nosso respeito.

Reportagem especial do Jornal Extra

Famílias se distanciam quando o preconceito religioso se torna uma barreira para a convivência doméstica



Por Clarissa Monteagudo - Extra

RIO - A dona-de-casa Dulcinéia dos Santos, de 45 anos, não foi ao casamento de dois de seus cinco filhos. Jamais conversa com as noras e só conseguiu pegar a neta no colo uma vez, porque a encontrou por acaso na rua. Tamanha indiferença não foi causada por nenhuma briga ou disputa familiar. A intolerância religiosa desatou todos os laços que uniam a mãe aos filhos. Candomblecista, ela se magoa ao lembrar que a mulher de seu filho a acusa de carregar "77 demônios" por pertencer à religião de matriz africana.

- Ela diz que se eu for à casa dela, deixarei um demônio lá. Se a menina ficar doente, a culpa é minha. São mentes atrasadas, eles repetem o que escutam na igreja deles. Criticam porque não conhecem. Nossa religião não é macumba nem feitiçaria. - afirma a dona-de-casa.

Dulcinéia se iniciou na religião, por amor ao filho mais jovem que ficou doente de forma repentina. Condenado pela medicina tradicional, o garoto ficou curado dentro de um barracão de candomblé. A conversão lhe custou os mais velhos.

- No Natal e no meu aniversário, não recebo nenhum telefonema. Às vezes, minha neta acena para mim da janela. Ela nem me reconhece como avó. Meu maior sonho é recuperar minha família - desabafa Dulcinéia.


Pânico e trauma

Joana (nome fictício), 44 anos, também é mãe e sofre como Dulcinéia. Mas seu problema não é a distância da filha, de 11 anos. Mas o problema de saúde da menina, que sofre de síndrome do pânico desde que o pai a levou para uma cerimônia de exorcismo.

Na época do casamento, Joana tinha a mesma religião que o marido. Após a separação, um grupo de religiosos invadiu sua casa para "retirar o demônio". Ela os expulsou. Mais tarde, tornou-se umbandista e sua filha passou a fazer parte de um grupo de evangelização de um centro kardecista. O pai decidiu "exorcizá-la".

- Minha filha acorda gritando e tem pesadelos. Ela ficou traumatizada porque o grupo de religiosos gritava pelo "capeta" com as mãos na cabeça dela. Na época da separação, também disseram que eu estava endemoniada, mas eu não podia delatar, porque era da religião e não podia levar "irmão em juízo" - diz Joana.

A partir deste ano, denunciar crimes de intolerância, como o vivido pela família, ficará mais fácil. A secretaria especial de políticas de promoção da igualdade racial firma uma parceria com o Ministério da Justiça para criação de delegacias especializadas em intolerância religiosa e crimes étnico-raciais no País. O objetivo é potencializar a unidade de São Paulo, que já existe, e implementar ainda esse ano no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.


Novas delegacias

Nas delegacias, trabalharão policiais especialmente treinados para identificar todo tipo de ofensa. E também psicólogos e assistentes sociais que possam ajudar nos casos. A secretaria trabalha na elaboração de uma lei específica sobre intolerância para apresentar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O objetivo é que ele apresente o projeto de lei no Congresso Nacional.

- O preconceiuto é pre-histórico, não coaduna com nosso tempo. É aberração, horror que um aluno sofra preconceito do professor na escola. Inquérito tem que seguir o curso, não pode ficar na gaveta - diz o secretário-adjunto do órgão Eloy Ferreira.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Presidente Lula anuncia plano nacional contra intolerância religiosa





Do jornal O Globo


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou ontem um Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e se comprometeu a enviar ao Congresso projeto de lei tornando mais rigorosas as punições à perseguição religiosa. Em ato pelo Dia da Consciência Negra, no Rio, o presidente reuniu-se ontem no Rio com líderes religiosos - presbiterianos, católicos, umbandistas e judeus. Lula recebeu um documento que, entre outros pontos, pede punição a veículos de comunicação que pregam a intolerância religiosa.


Ivanir dos Santos, babalaô (sacerdote da tradição iorubá), saiu do encontro satisfeito: "Foi muito bom. Saímos com a certeza de que o presidente vai elaborar um plano de combate à intolerância religiosa e um projeto de lei para ser enviado ao Congresso, em parceria com esse fórum de religiosos e reunindo os ministérios da Justiça, da Igualdade Racial, das Comunicações e a Casa Civil".


Participaram Ivanir, mãe Regina do Bongbosê (filha e neta de africanos) e Pai Zezinho da boa Viagem, do candomblé; Mãe Fátima Damas, da umbanda; dom Antônio Duarte, bispo auxiliar da Arquidiocese do Rio; Marco Amaral, pastor da Igreja Presbiteriana; Sérgio Niskier, presidente da Federação Israelita.


Ivanir abriu a reunião lembrando que em 1994 levou o então candidato Lula ao barracão de mãe Yá Nitinha, no Rio, e que o presidente na ocasião foi alvo de ataques da Igreja Universal pela visita. Todos os religiosos falaram. Dom Antônio, em nome da CNBB, manifestou o apoio da Igreja Católica aos religiosos de matriz africana na luta pela liberdade religiosa: "Todos reafirmamos nosso apoio à reivindicação, porque a diversidade e a riqueza religiosa é um fato incontestável". Mãe Beata de Yemanjá, emocionada, chorou ao pedir providências "por não agüentar mais ver seu povo massacrado".


Uma das reivindicações é que o governo proíba patrocínio de órgãos e estatais a veículos de comunicação que estimulam a intolerância. A carta também pede ao Ministério das Comunicações punição a esses veículos com multa e retirada da programação do ar.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Religiões tecem redes para responder ao HIV na América Latina





O diálogo inter-religioso precisa tratar às vezes de assuntos carnais. Foi o que comprovou o diretor regional do escritório regional latino-americano de Religiões pela Paz, Elías Szczytnicki, quando, ao relatar a sua experiência como judeu, explicou aos representantes de outras religiões em que consiste exatamente a circuncisão, prática recomendada por especialistas para reduzir o risco de contrair HIV.

De acordo com três estudos realizados pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre Aids (ONUSIDA) no Quênia, Uganda e África do Sul, dos quais participaram dez mil homens entre 15 e 49 anos, a circuncisão reduziu em quase 60% o risco de contrair HIV por via heterossexual.
Szczytnicki explicou a prática durante encontro do conselho da Rede Inter-religiosa sobre HIV e Aids, que teve lugar no Instituto Cultural México-Israelense da Cidade do México, no marco da Conferência Internacional AIDS 2008.

Religiões pela paz reúne as maiores religiões mundiais. Ela procura estabelecer “uma plataforma de incidência na liderança religiosa e em políticas públicas”. Suas ações estão orientadas a sensibilizar, capacitar e formar alianças.
Um dos objetivos da organização é fomentar o investimento público em medicação antirretroviral para recém nascidos com HIV. Integram a Rede Inter-Religiosa sobre HIV e Aids para a América Latina organismos seculares como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e para a População (UNFPA), e entidades religiosas como o Conselho Latino-Americano de Igrejas (Clai), Visão Mundial e Cáritas.

O trabalho da Rede conta com o apoio do Grupo de Cooperação Técnica Horizontal da América Latina e do Caribe em HIV/Aids (CGTH). O GCTH é uma iniciativa formada por representantes dos programas governamentais para o Controle e a Prevenção da Aids em 20 países da América Latina e do Caribe.



Fonte: Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)

sábado, 1 de novembro de 2008

Dia da Reforma: um marco na história das religiões


Sexta-feira, 31 de outubro de 2008 (ALC) - O Instituto Humanistas (IHU), da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), lembrou a fixação das 95 teses de Martinho Lutero na igreja do castelo de Wittenberg, e historiou a trajetória do monge agostiniano até chegar à Reforma. A Unisinos é uma instituição da Companhia de Jesus, localizada em São Leopoldo, e tem 26 mil alunos matriculados nos seus cursos de Graduação, Pós-Graduação e Extensão. Abaixo, o texto do IHU na íntegra. 

Dentro de dez anos, o ato de contestação de um jovem monge alemão que marcou a história mundial irá completar 500 anos. É por isso que hoje, 31 de outubro, dia em que Martinho Lutero (1483-1546) pregou suas 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, na Alemanha, possui um caráter especial, marcando o período que está sendo chamado de Década de Lutero.Com o lema “Lutero 2017 – 500 anos de Reforma”, a proposta é confrontar as teses do reformador com perguntas da atualidade.

Martinho Lutero, nascido em 10 de novembro de 1483, em Eislebn, iniciou sua formação aos 18 anos, na Universidade de Erfurt. Aos 21 anos, tornou-se doutor em filosofia. Em 1505, completou o curso de artes. Com 22 anos, entrou para o mosteiro dos Eremitas Agostinianos. Em setembro de 1508, aos 24 anos de idade, mudou-se para Wittenberg, onde pretendia continuar seus estudos.

Nove anos mais tarde, em 1517, conta a história que ele pregaria na porta da igreja do castelo de Wittenberg suas 95 teses desesafiando os ensinamentos da Igreja sobre a penitência, a autoridade do papa e a utilidade das indulgências e com um convite aberto ao debate sobre elas, o que marcaria o início da Reforma Protestante.

Afirmava Lutero, na abertura de suas teses: “Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do reverendo padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito, mesmo que ausentes. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.”

A partir da publicação-protesto do “Debate para o esclarecimento do valor das indulgências”, o texto foi traduzido do latim para o alemão, o holandês e o espanhol em menos de um mês, iniciando-se aí um forte processo de divulgação e estudo das Teses. Em 1518, Lutero foi considerado herege pela Igreja Católica e, em 1521, a bula papal de Leão X "Decet Romanum Pontificem" determinava a excomunhão do monge.

Lutero foi então exilado no Castelo de Wartburg, em Eisenach, onde permaneceu por cerca de um ano. Durante esse período, trabalhou na sua tradução da Bíblia para o alemão, publicando o Novo Testamento em setembro de 1522.

Assim, começaram a ocorrer renúncias ao voto de castidade e do celibato, ao mesmo tempo em que outros tantos atacavam os votos monásticos, além da eliminação das imagens nas igrejas. O casamento de Lutero com a ex-freira cisterciense Catarina von Bora incentivou o casamento de outros padres e freiras que haviam adotado a Reforma.

Em janeiro de 1521 foi realizada a Dieta de Worms, que teve um papel importante na Reforma. Nela, em vez de Lutero desmentir as suas teses, como lhe era pedido, defendeu-as e pediu a reforma, o que ficou registrado na história pela suas palavras: "Hier stehe ich. Ich kann nicht anders" (Aqui estou. Não posso diferente).

Para responder a esse processo, a Igreja Católica realizou o Concílio de Trento (1545-1563), que resultou no inicio da Contra-Reforma ou Reforma Católica. A Inquisição e a censura exercidas pela Igreja foram a resposta para evitar que as idéias reformadoras encontrassem divulgação em outros países.

Foi nesse período que ocorreu o Massacre da Noite de São Bartolomeu, na França, em 24 de agosto de 1572, tendo se estendido por vários meses, inicialmente em Paris e depois em outras cidades francesas, vitimando entre 70 mil e 100 mil protestantes franceses, os chamados huguenotes.

A Reforma, ao longo do tempo, foi se firmando em quatro pilares principais: somente a Escritura (sola scriptura), somente a graça de Deus (sola gratia), somente Jesus Cristo (solus Christus) e somente a fé (sola fide). Com isso, afirmava-se que a Escritura revela a verdade da salvação eterna através de Jesus Cristo, e nenhum outro livro ou mensagem pode tornar-nos capazes para a salvação. Daí vem o propósito de Lutero de traduzir essa verdade para a língua do seu povo.

A Reforma também defendeu que, em seu grande amor e misericórdia, Deus tomou a iniciativa de salvar o homem. Porém, como foi concebido em pecado, o homem não tem forças para se salvar. Por isso, Jesus Cristo, por causa do sacrifício feito na cruz e por causa da sua ressurreição, é o Único que pode salvar o ser humano dos inimigos que o aprisionam. Assim, a Reforma está baseada na Escritura como regra ou norma única de fé e vida, e sobre a fé somente em Jesus como Salvador da humanidade.

A primeira tentativa de estabelecer uma igreja protestante no Brasil foi em 1555, que pretendia dar refúgio aos calvinistas franceses, perseguidos pela Inquisição européia. A segunda tentativa foi em 1630, quando os holandeses tomaram Recife, Olinda e parte do Nordeste, registrando a presença do protestantismo. Após a expulsão dos holandeses, em 1654, o Brasil fechou as portas aos protestantes por mais de 150 anos.

Com a chegada da família real, em 1808, abriu-se uma brecha no monopólio católico, permitindo a presença de outras religiões. Os protestantes estrangeiros, no entanto, não podiam pregar nem construir igreja com torre, mas podiam reunir-se e cultuar a fé, comercializar a Bíblia e até distribuí-la.

O luteranismo foi trazido ao Brasil pelos primeiros imigrantes alemães que desembarcaram em São Leopoldo, no Vale do Sinos, no Rio Grande do Sul, em 1824.
 


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Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC)
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